Dias desses recebi um mail de uma amiga com o título “eis o porque não pegamos homem em buteco”, já achei estranho chegar a minha caixa de entrada esse tipo de mensagem. Quando abri a lista de destinatários somente a garotas estava endereçada a surpreendente mensagem, todas conhecidas, e da maioria conhecia a reclamação pois estão sempre no buteco comigo (ou eu com elas, tanto faz a ordem quando se está entre amigos) tomando umas cervejas, degustando de diversos ou sempre os mesmos petiscos gordurosos e colesterólicos, falando das besteiras instantâneas que só surtem efeito sob efeito de álcool, reclamando da vida e se preocupando com um futuro que parece cada vez mais curto, com o aproximar da idade e de suas consequências.
Minha resposta para este e-mail foi: “Eu nem li e só tenho uma pergunta: O que é que eu tenho a ver com isso?”. Depois de vários vai-e-vem (!) de mensagens com essas garotas recebi uma resposta plausível para ter meu endereço nesse mailling de salto alto: “Eu só queria uma opinião masculina sobre o assunto”. A simplicidade desta resposta me fez ficar um tanto contrariado de ter sido tão seco na minha réplica mas como o que está escrito é documento resolvi emitir a solicitada opinião masculina sobre o assunto.
A relação de homem com cerveja é um relacionamento aberto do dia-a-dia, não tem cobranças de lado nenhum, não tem essa de ter que reparar se a cerveja mudou o rótulo, se a garrafa deu uma tarimbada na silhueta. Mas ela está lá livre, desimpedida, gelada e saborosa (sem essa frescura de degustar bebida nenhuma mas cerveja é saborosa, senão ninguém beberia). Tudo o que um homem precisa da cerveja ela pode fazer, quando o cara está cansado e vai para o seu happy hour, ele divide sua cerveja com os amigos sem o menor ciúme, troca de marca para acompanhar a maioria ou prova a sua fidelidade sendo o exclusivo da sua preferida. Mas happy hour que se preze é em buteco!
Lá são proferidos impropérios contra a atuação do presidente e do governador, piadas de tragédias nacionais e sacanagens direcionadas a presentes ou ausentes. Sempre regado a, pelo menos, uma garrafa cheia na mesa por vez (ou agilidade do grande cafetão etílico que é o garçom), quando não duas ou mais devido à quantidade de pessoas interessadas em se concentrar na degustação da baixa culinária, viradas de copos, alongamentos para pegar o isqueiro no bolso (porque Zippo não se deixa sobre a mesa), oratória de baixo calão, ou seja, o bom e velho umbigocentrismo masculino de buteco que reclamava o texto, escrito, lógico, por uma mulher que me foi enviado e causou estranheza. Sim, o homem vai para o buteco, falar besteira com seus amigos, marcar um campeonato de futebol (real ou no vídeo game), campeonato de sinuca, falar da gostosa do mês que sair pelada na capa da revista e esquece dela quando outro começar a falar do filme de herói que estréia na semana que vem.
Ninguém vai para o buteco para lembrar que tem que comprar remédio da mãe, que tem que procurar um emprego decente, que está sem namorada, que tem contas pra pagar. Nenhum homem faz isso, salvo quando vai sozinho pra sair engatinhando de lá, puto da cara com algo de muito foda que aconteceu.
Nenhum cara entra no buteco pensando que vai encontrar a mãe dos seus futuros filhos lá, que vai achar o carro do modelo que ele quer da cor prata ou chumbo ou que vai tropeçar na entrada e cair de cara num bilhete de loteria que mude sua vida.
É tudo uma questão de intencionalismo intrínseco, ninguém vai na igreja pra apostar em cavalos porque não tem guichê de apostas, não tem pista de corrida, ninguém vendendo amendoim salgado e cerveja, nem nada. Tem bancos longos virados para frente, só! O que se vai fazer lá senão rezar?
Da mesma forma ninguém vai no buteco procurar sua alma gêmea, porque lá só tem caixas de cerveja empilhadas, mesas, cadeiras e um espaço mínimo entre elas para passarem as pessoas que vão ao banheiro, não tem área de approach, não tem um canto sussa com balcão onde se possa colocar os copos quando precisar utilizar as mãos. O buteco, essa instituição sagrada que provém boa parte das necessidades masculinas, é um lugar onde se vai para encher a cara, ver um jogo de futebol, comer uma gordura com gosto de comida de verdade, no máximo o cara da uma olhada pra gostosa que está indo ao banheiro e passou no seu ângulo de visão.
E qualquer lugar que não tenha mesas apertadas, com suas cadeiras a ponto de contrariar a lei da física que fala sobre dois corpos e um só lugar, caixas de cerveja a mostra, espaços intracelulares mínimos que dão acesso ao banheiro não pode ser chamado de buteco. Aí sim, reside uma questão de respeito!
Áudio >> Fear Not of Men - Mos Def.
Publicado em 03 de agosto de 2007 às 13:19 por unsleeper